Quando se viaja de transportes públicos não podemos evitar ver determinadas coisas que nos fazem pensar. Pode até parecer estranho ouvir isto, mas o comboio ou o metro são óptimos sitios para reflectir e observar pessoas. É um meio riquissímo para quem estuda psicologia, ou simplesmente se interessa pelas pessoas com todas as suas diferenças e semelhanças, como é o meu caso.
Contacto diariamente com todo o género de pessoas: desde os senhores de negócios, com as suas pastas e gravatas àqueles que se assemelham a rufias, traficantes ou drogados... Velhos, novos, gordos, magros, altos, baixos, ricos, pobres, bébés, crianças, adolescentes, adultos, idosos, grávidas, pretos, brancos, amarelos, etc, etc, etc.
Há para todos os gostos, é só escolher. Os seus hábitos também são variados. Há quem leia o jornal gratuito que está à disposição de todos, há quem coma, quem beba, quem ouça música, quem leia, faça sudoku ou palavras cruzadas, sopa de letras ou descubra as diferenças, ou simplesmente, aproveite para passar pelas brasas. Na azáfama das suas vida, poucos são os que reservam uns minutos para olhar para a janela durante a travessia do Tejo, talvez porque já o viriam demasiadas vezes, talvez porque não queiram aceitar a realidade em que a sua vida se transformou, talvez olhar para a rotina os faça lembrar de que todos os momentos são pequenos sacrifícios, que se acumulam ao longo de uma vida... Ou talvez seja apenas por distracção ou porque estavam algures a sonhar acordados... Ou se calhar têm tanta gente à sua frente que nem conseguem vislumbrar a janela ou a porta...
Há também os estilos de roupa, que ilustram a classe social de cada um ou o seu modo de estar na vida. Há as senhoras nos seus conjuntos saia-casaco, ou calça de vinco-casaco, os senhores doutores engenheiros nos seus fatos escuros de gravatas mais ou menos coloridas e camisa branca, os desleixados, os casuais, os adeptos do estilo confortável, os punks, os hippies, os dreads e todos restantes grupos afins...
Depois há a forma como todas estas pessoas interactuam entre si, os grupos que formam. Temos as mães ou os pais com os seus filhotes, por vezes avós e netos, grupos de crianças que se dirigem para a escola logo pela manhã, adolescentes eufóricos e pouco discretos, deixando as suas marcas por onde passam, os universitários trajados, de capa num braço e material escolar no outro, os colegas de trabalhos e as suas discussões sobre os assuntos do dia anterior, os aficcionados pelo desporto, normalmente o futebol, que discutem os resultados mais ou menos favoráveis para o seu clube, e, como não poderia deixar de ser, o célebre e nunca gasto casal d namorados, de mão dada e cheios de ternura, com os seus olhares de cumplicidade e afecto... Resta-me só adicionar o facto de que todas estas pessoas, com todas as suas diferenças, têm um grande aspecto em comum, para além de serem todas da mesma espécie e de se localizarem geograficamente na mesma região do globo: todas elas andam numa correria enorme, sempre de um lado para o outro, numa labuta interminável, de tal forma, que quase não dão pela presença uns dos outros, ou simplesmente se ignoram mutuamente.
Quando se vive numa grande cidade aprende-se a ignorar as pessoas que nos rodeiam, a reduzir os cumprimentos e a simpatia ao menor nível possível, o bastante apenas para exercer um pouco de cidadania.
Mas há alguém que consegue sempre chamar a minha atenção, talvez pela sua maneira de sobreviver a este mundo e tentar superar as suas dificuldades. Falo de um estranho senhor, cego, que passa o seu tempo a percorrer o metro com a sua caixinha de esmolas e o som da sua harmónica. Acho-o extraordinário, por ter tão pouco e parecer fazer melhor uso do que nós, que temos tanto a que não damos valor. Este senhor, cujo nome desconheço, a quem ninguém presta atenção, é capaz de aproveitar as poucas capacidades que tem para lutar pela vida, dando a todos nós uma grande lição de vida. Isto para quem é capaz de lhe oferecer uns breves segundos de atenção, já que esmola é ainda mais difícil...